Assessoria SINASEFE MT
Belém (PA) — Encerrando a programação do primeiro dia, na noite desta quinta-feira (09), o 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE realizou sua Conferência de Abertura, reunindo cerca de 500 mulheres de todo o país em um espaço de debate político, escuta e construção coletiva.
Com o tema “Vivas, livres e plurais, do silêncio à voz: mulheres que educam, lutam e resistem”, a atividade deu o tom dos debates que seguem até domingo (12). A mesa contou com exposições de Nilma Bentes, Regina Célia Barbosa, Roberta Cassiano e Vanuza Cardoso, sob mediação de Janette Otte, e foi atravessada por diferentes perspectivas sobre o feminismo, o mundo do trabalho, violência de gênero, vivências e tantos outros temas.
A conferência também foi marcada pela participação ativa das delegações. Entre as intervenções, a fala da coordenadora-geral do SINASEFE Seção Mato Grosso, Andreia Iocca, que lembrou que Mato Grosso figura entre os estados com maiores índices de feminicídio, destacou que apenas nos primeiros meses do ano dez mulheres já haviam sido assassinadas. Para além dos números, Andreia apontou o papel do Estado nesse cenário, ao denunciar a ausência de recursos públicos destinados ao enfrentamento da violência contra as mulheres. Ao articular sua trajetória marcada pela violência com a realidade coletiva, reforçou a necessidade de romper com essa lógica de violência que as mulheres vivem. Em sua fala, destacou ainda o papel da educação e da luta política como caminhos para transformação, afirmando que resistir também é disputar valores, consciência e poder. Confira aqui a fala na íntegra.
Confira abaixo o resumo das falas no texto do SINASEFE Nacional:
A Conferência de Abertura do 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE teve como tema “Vivas, livres e plurais, do silêncio à voz: mulheres que educam, lutam e resistem”. Atividade aconteceu na noite desta quinta-feira (09/04), no sindicato dos Bancários, em Belém-PA.
A mediação foi feita por Janette Otte (docente do IF Sul-RS). Falaram neste momento: Roberta Cassiano (coordenadora geral do Sintifrj), Regina Célia Barbosa (cofundadora, vice-presidenta e diretora pedagógica do Instituto Maria da Penha), Vanuza Cardoso (Quilombo do Abacatal, Ananindeua-PA) e Nilma Bentes (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – Cedenpa). Veja mais informações sobre as participantes aqui.
Roberta iniciou sua intervenção propondo uma desestabilização da categoria “mulher”, questionando o que sustenta o uso do “nós” no feminismo contemporâneo. A palestrante argumentou que esse coletivo não pode ser fundado na biologia, em uma suposta essência natural ou em uma história única e homogênea, pois isso apagaria as diferenças de raça, classe, território e identidade de gênero (incluindo mulheres trans e pessoas não binárias).
Além disso, criticou a ideia de que a violência sofrida ou uma “sororidade” abstrata e harmônica sejam bases suficientes para a união, defendendo que o dissenso e o reconhecimento das relações de poder entre as próprias mulheres são fundamentais para uma transformação real.
Em um segundo momento, ela alertou para o risco de captura das pautas feministas pela lógica institucional e pelo capital, onde a representatividade e a inclusão podem se tornar apenas performances morais sem mudanças estruturais. Roberta observou que, especialmente em anos eleitorais, a urgência das disputas institucionais pode estreitar a imaginação política e reduzir o alcance das lutas a uma mera gestão de danos.
Por fim, Roberta concluiu que o único “nós” possível é aquele construído a partir de um projeto comum e revolucionário, voltado para o futuro e não apenas para a reação contra a opressão. “É necessário um horizonte socialista, por entender que o sistema que articula capitalismo, racismo e patriarcado não pode ser reformado para garantir dignidade a todas. Assim, a emancipação das mulheres é apresentada não como uma concessão, mas como uma exigência para a vitória de toda a classe explorada”, defendeu. Leia aqui a fala completa de Roberta.
Regina Célia focou sua fala na dimensão subjetiva da violência, destacando que a mulher agredida chega aos centros de apoio “totalmente esvaziada do ser político”. Ela argumentou que, embora estratégias teóricas de luta sejam fundamentais, a realidade prática do acolhimento lida com “almas em frangalhos” que perderam a voz e a identidade. Para a palestrante, a violência no século 21 atua de forma sutil, em “doses homeopáticas” de abusos psicológicos que minam a resistência feminina e impactam profundamente a juventude que testemunha esse ciclo.
A palestrante mencionou dados para denunciar a invisibilidade do problema, comentando que 70% das vítimas não acreditam no apoio de outras pessoas e sofrem em silêncio por anos. Ela critica a omissão em instituições tradicionais, como forças militares e igrejas, onde o apoio muitas vezes é superficial. Regina também conectou essa realidade à política institucional, apontando que a baixa representatividade feminina no Congresso dificulta a aprovação de leis e orçamentos que garantam apoio real às mulheres e crianças que “gritam por socorro”.
Ela encerrou com uma provocação direta às educadoras e sindicalistas, questionando qual é o alcance do poder delas para transformar essa realidade. Regina reforçou ainda que a Lei Maria da Penha só terá eficácia plena quando houver uma rede de vigilância ativa em todos os espaços sociais.
Vanuza reafirmou a sua identidade como mulher negra e amazônica, fundamentada na ancestralidade e na força do território quilombola. Ela destacou que a sua militância é uma herança das gerações que a antecederam, honrando a memória de mulheres que lutaram para que ela pudesse ocupar espaços de fala e resistência como o encontro sindical.
A palestrante relatou a dura realidade da violência política e das ameaças de morte que a forçaram a viver em abrigos, criticando a naturalização do abuso e a culpabilização da vítima. Vanuza questionou a eficácia das leis atuais e apontou a contradição de uma sociedade que, embora educada por mulheres, continua a reproduzir homens que perpetuam o ódio e o machismo.
Finalizando sua intervenção, ela apelou à transformação da educação e da política por meio de metodologias que envolvam os jovens e os homens na desconstrução da violência. Com o olhar atento ao ano eleitoral, convocou as mulheres à organização coletiva para eleger representantes comprometidas(os) com a proteção real das vidas femininas e com a construção de um futuro plural e seguro.
Nilma Bentes iniciou a sua intervenção de forma descontraída, resgatando a memória de um tempo em que as mulheres viviam distantes do conhecimento do próprio corpo. Ela destacou que processos naturais, como a menstruação, eram cercados de tabus e silêncios, o que impedia uma vivência plena das especificidades femininas. Para Nilma, essa falta de conhecimento não era casual, mas uma forma de controle que distanciava as mulheres da sua própria autonomia e força desde muito cedo.
Ao trazer esse histórico, a palestrante conectou a descoberta do corpo com a descoberta da política. Ela argumentou que, ao romper com esses tabus, as mulheres passaram a organizar-se melhor, entendendo que o cuidado de si e o autoconhecimento são os primeiros passos para a resistência coletiva. Nilma reforçou que, para as mulheres negras e da Amazônia, essa reconexão com o corpo e com o território é ainda mais vital, pois é onde se inscrevem as marcas da luta e da ancestralidade que o sistema tenta apagar.
Por fim, Nilma enfatizou que a organização das mulheres hoje deve ser “rigorosa”, unindo essa consciência individual à luta econômica e sindical. Ela defendeu que o movimento precisa de ser capaz de acolher as diversidades e as transformações históricas, garantindo que as novas gerações não herdem os mesmos silêncios do passado. A sua fala foi um convite para que as mulheres continuem a transformar o conhecimento de si em poder político, ocupando espaços de decisão com a propriedade de quem conhece a sua própria história e as necessidades do seu povo.
Após as palestras, dezenas de participantes, de várias regiões brasileiras, também apresentaram suas contribuições ao tema e assistiram um vídeo de saudação enviado por Maria da Penha.
O 4º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE segue com programação nesta sexta-feira (10) e continua até domingo (12), aprofundando os debates sobre paridade, interseccionalidade, saúde mental, condições de trabalho e políticas para as mulheres.
Programação dos próximos dias
Sexta-feira (10/04)
9h às 12h – Paridade, poder e interseccionalidade: pluralidade de mulheres na disputa dos espaços de decisão
14h às 18h – Entre o silenciamento e o adoecimento: violência institucional, saúde mental e respostas coletivas na Rede Federal
Sábado (11/04)
9h às 12h – Tempo de cuidar, tempo de lutar, tempo de viver: políticas institucionais para as mulheres
14h às 18h – Nem precarizadas, nem exaustas: jornada, condições de trabalho e aposentadoria
Domingo (12/04)
10h às 13h – Vivas, livres e plurais: encaminhamentos
13h às 18h – Imersão cultural